Qualidade, Armazenamento e Controle de Diesel — Perspectiva de Confiabilidade
Estruturação do controle do diesel como ativo operacional crítico. Abordagem focada em degradação química, estabilidade, lubricidade, contaminação e dinâmica de falha do sistema de injeção de alta pressão, conectando exigências da ANP com recomendações de fabricantes.
1) Estrutura química e comportamento do diesel moderno (S10 + Biodiesel)
O diesel S10 passa por hidrotratamento (baixo enxofre), o que reduz compostos polares que contribuem para lubricidade. A lubricidade final depende do pacote de aditivos do fornecedor, da mistura com biodiesel e da ausência de água livre/emulsificada.
- Pacote de aditivos e compatibilidade com elastômeros (vedações, mangueiras e bombas)
- Teor e estabilidade do biodiesel na mistura (Bxx conforme ANP) — impacto em lubricidade e estabilidade oxidativa
- Gestão de água (drenagem + coalescência) para preservar lubricidade e evitar microbiologia
- Relação entre densidade / energia específica do combustível e consumo específico dos motores
2) Cadeia de degradação e falha do sistema de injeção
Sistemas HPCR (1.800–2.500 bar) são sensíveis a variações de lubricidade, contaminação sólida e água. O dano é progressivo.
| Componente | Mecanismo físico-químico | Consequência operacional |
|---|---|---|
| Filtro primário / coalescente | Emulsões estáveis + perda de hidrofobicidade | Água migra para a bomba de alta; coalescente perde eficiência |
| Bomba de alta pressão | Abrasão + microgripagem por lubricidade insuficiente | Geração de limalhas metálicas finas e cavitação |
| Bicos injetores | Erosão dos orifícios + desvio do cone de spray | Combustão irregular, aumento de consumo e emissões |
| Retorno ao tanque | Recirculação de contaminantes + oxidação acelerada | Tanque vira “reator” de degradação (borra e acidez) |
3) Água, microbiologia e estabilidade oxidativa
Água livre, suspensa ou emulsificada sustenta microbiota (biofilme) e acelera a formação de ácidos orgânicos, elevando TAN, corrosividade e risco de borra estrutural. A degradação oxidativa é mais rápida na presença de biodiesel e temperaturas elevadas.
- Elevação de TAN e queda de estabilidade → alerta de envelhecimento e necessidade de “polimento” do combustível
- Biofilme em paredes do tanque → desprendimento → entupimento em série de filtros e coalescentes
- Ataque a elastômeros, bombas de transferência e componentes do circuito de baixa pressão
- Influência de períodos longos de estocagem e tanques parcialmente cheios (mais condensação)
4) Estratégia operacional: controle proativo do diesel
Recebimento
- Verificar lote, certificado de qualidade, densidade/viscosidade e lacres (conformidade ANP + fornecedor)
- Coletar amostra representativa com rastreabilidade (data, fornecedor, caminhão, compartimento)
- Preferir fornecedores de alta rotatividade e com histórico de conformidade
Armazenamento
- Drenagem semanal do ponto baixo (água/borra) e após cada descarga
- Respiros dessecantes e filtros de respiro (4 µm) para reduzir entrada de pó e umidade
- Limpeza interna periódica (ou por tendência de análise de diesel + inspeção visual)
| Ação | Parâmetro | Controle recomendado |
|---|---|---|
| Lubricidade (HFRR) | µm | ≤ 460 µm |
| Água total | mg/kg (Karl Fischer) | Menor possível + análise de tendência |
| Contagem de partículas | ISO 4406 | 14/13/11 ou melhor para sistemas críticos |
| Estabilidade oxidativa | Horas (ex.: EN 15751) | Conforme especificação do fornecedor; acompanhar perda ao longo do tempo |
5) Indicadores operacionais (confiabilidade e custo)
- Horas até entupimento de filtro (primário e de motor)
- Consumo específico vs. carga (curva de eficiência de cada máquina)
- Tendência de HFRR, água (KF) e contagem de partículas
- Falhas de bicos / bombas por 1.000 h ou por milhão de litros consumidos
- Custo de injeção (reparos) por hora operada ou por m³ bombeado
6) Ensaios laboratoriais para controle da qualidade do diesel
O monitoramento deve combinar análises físico-químicas, estabilidade e contaminação. A interpretação é feita por tendência e correlação com eventos de campo.
| Ensaio | Norma / Método | Parâmetro | Importância operacional |
|---|---|---|---|
| Água total | Karl Fischer (ASTM D6304) | mg/kg (ppm) | Água reduz lubricidade, sustenta microbiologia e eleva corrosão. Acompanhar tendência. |
| Contagem de partículas | ISO 4406 / ISO 11500 | Código ISO | Correlaciona com desgaste de bomba/injetor e integridade da filtragem. |
| Lubricidade (HFRR) | ISO 12156-1 / equivalentes | µm | Crítico para HPCR. Recomendado ≤ 460 µm (diâmetro de desgaste). |
| Estabilidade oxidativa | EN 15751 (Rancimat) | Horas | Propensão a goma/borra e ácidos — essencial com biodiesel. |
| Acidez total (TAN) | ASTM D664 | mg KOH/g | Indica envelhecimento e atividade microbiológica → corrosão. |
| Contaminação microbiológica | ASTM D7978 / D7463 (ATP/cultura) | Presença/intensidade | Confirma evolução de borra. Correlacionar com drenagens, filtros e TAN. |
| Densidade / Viscosidade | ASTM D4052 / D445 | kg/m³ / cSt | Desvios podem indicar adulteração, fraude ou envelhecimento. |
| Espectrometria de metais | ICP-OES / ICP-MS | ppb–ppm (Fe, Cr, Ni, Cu, Zn, Al, etc.) | Rastreia desgaste de bomba/injetores e contaminações metálicas na cadeia logística. Útil para causa raiz quando há limalhas. |
7) Parâmetros regulatórios (ANP) e consequências operacionais
A regulamentação brasileira (ANP) define faixas e limites para características críticas do óleo diesel automotivo. Abaixo, um resumo operacional para S10/S500 com foco em confiabilidade (valores típicos — consultar sempre a resolução ANP vigente).
| Parâmetro (ANP) | Referência típica | Consequência operacional se fora da especificação |
|---|---|---|
| Teor de enxofre | S10: ≤ 10 mg/kg — S500: ≤ 500 mg/kg | Enxofre ↑ → corrosão, fuligem, sulfatos; impacto em emissões e vida útil de motor e pós-tratamento. |
| Número de cetano | S10 típico: ≥ 48; S500 típico: ≥ 42 | Abaixo do mínimo → partida difícil, ruído, atraso de ignição, aumento de consumo. |
| Densidade a 20 °C | Faixa típica ~ 815–850 kg/m³ (S10) e até ~ 865 kg/m³ (S500) | Fora da faixa → energia específica alterada; suspeita de adulteração/fraude ou mistura indevida. |
| Viscosidade a 40 °C | Faixa típica ~ 2,0–4,5 mm²/s | Baixa viscosidade → lubrificação insuficiente; alta → atomização ruim e depósitos. |
| Ponto de fulgor | ≥ 38 °C | Abaixo do mínimo → risco de segurança (inflamabilidade) e suspeita de contaminantes leves (gasolina/solvente). |
| Água e sedimentos | Limites de ordem de 0,02% m/m | Acima do limite → falha de coalescência, microbiologia, borra, corrosão e desgaste acelerado de bomba/injetores. |
| Lubricidade (HFRR) | ≤ 460 µm (obrigatório para S10/S500) | Acima do limite → microgripagem em bombas/injetores e geração de limalhas. |
| CFPP / Ponto de entupimento a frio | Limites por região/estação (ANP/PROCONVE) | Acima do limite (pior frio) → cristalização de parafinas e entupimento de filtros a baixas temperaturas. |
8) Biodiesel, ULSD e impacto em confiabilidade (Bxx em S10/S500)
O diesel comercializado é uma mistura de óleo diesel mineral com biodiesel (Bxx). A combinação “enxofre muito baixo + biodiesel” melhora lubricidade, mas muda a forma como o combustível envelhece e se contamina.
Ganhos com biodiesel
- Aumenta a lubricidade de misturas com baixo teor de enxofre (ULSD), reduzindo risco de gripagem de bombas/injetores
- Contribui para redução de HC, CO e material particulado em relação ao diesel mineral puro
- Baixo teor de enxofre e origem renovável → melhor pegada ambiental
Pontos de atenção
- Maior afinidade com água → favorece microbiologia e corrosão de tanques e linhas
- Menor estabilidade oxidativa → formação mais rápida de borras, gomas e depósitos em filtros
- Maior tendência ao entupimento de filtros em frio (cloud/pour point mais altos)
- Limite de tempo de estocagem menor (tanques parados por muitos meses = risco alto)
| Aspecto | Efeito prático | Resposta recomendada |
|---|---|---|
| Higroscopicidade (absorção de água) | Aumento de água dissolvida e emulsões estáveis | Drenar tanques com frequência e monitorar água (KF) + microbiologia |
| Estabilidade oxidativa | Envelhecimento mais rápido em calor e longos tempos de armazenamento | Renovar estoques, evitar tanques “meio cheios”, monitorar estabilidade e TAN |
| Depósitos em filtros e injetores | Plugging, perda de potência, aumento de consumo | Rotina de inspeção de filtros + correlação com análises de diesel |
| Compatibilidade de materiais | Alguns elastômeros antigos podem inchar ou rachar | Monitorar vazamentos e adequar materiais em sistemas mais antigos |
9) Plano mínimo de monitoramento, amostragem e KPIs de diesel
Para transformar teoria em resultado, é preciso amarrar frequência de amostragem, pacote de ensaios e indicadores de desempenho.
Frequência recomendada (exemplo)
- Tanque central de diesel: amostragem mensal (ou a cada 500 m³ movimentados)
- Tanques remotos em minas/usinas: amostragem bimestral ou por campanha
- Linha crítica para geradores / frotas de alta disponibilidade: monitorar após eventos anômalos (entupimento, falha de injeção)
Pacotes de ensaio
- Básico: densidade, viscosidade, água total, aspecto, CFPP (se aplicável)
- Qualidade ampliada: básico + estabilidade oxidativa, TAN, contagem de partículas
- Investigação de falha: ampliado + metais por ICP, microbiologia, espectro completo de contaminação
| KPI | Como medir | Meta / Tendência |
|---|---|---|
| % de lotes de diesel conformes à ANP | Comparar laudos de recebimento com especificações vigentes | Meta: > 98% em conformidade |
| Horas entre entupimentos de filtro | Registro em CMMS / planilhas de manutenção | Tendência crescente; quedas súbitas → investigar combustível e tanques |
| Índice de falhas de sistema de injeção | Falhas de bomba/bico por 1.000 h ou por 1.000.000 L consumidos | Meta de redução ano a ano após implantação do controle de diesel |
| Tempo de resposta a não conformidades de diesel | Da identificação ao bloqueio do lote / correção | Horas, não dias; priorizar ação rápida para evitar contaminação da frota |
